Institucional
02.10.2026
OS 08 APRENDIZADOS DOS JUBILEUS FRANCISCANOS
No dia 30/09 ocorreu a terceira live da Semana Franciscana 2026, organizada pelo Instituto Teológico Franciscano (ITF). Com o tema: Os Jubileus Franciscanos: Graça, memória e profecia. A transmissão teve a apresentação de Frei Sandro Roberto da Costa, diretor do Instituto, contou com a moderação de Antônio Carlos Jucá, da OFS e a reflexão de Gabriela Consolaro (OFS) e Frei Oton Júnior, OFM.
Confira os 8 aprendizados deste importante encontro da Semana Franciscana:
1- Jubileus: graça, memória e profecia
Gabriela Consolaro: Tanto os centenários, como os ritos e as liturgias, só "têm sentido se provocarem em nós reflexão, mudança, conversão". Do contrário, é possível passar pelos jubileus como meros espectadores, sem que nada mude.
Três palavras nos auxiliam a celebrar os jubileus franciscanos: a graça nos faz perguntar por que celebramos; a memória nos faz recordar o que celebramos; e a profecia pergunta o que esse presente da graça e essa oferta da memória exigem de nós hoje. Sem a profecia, eles podem até ser válidos formalmente, mas não constroem o Reino, porque não efetivam transformações nem projetam a fraternidade.
2- Greccio: um Deus que se faz presença concreta
Gabriela Consolaro: O presépio de Greccio é muito especial porque Francisco queria algo muito material, o querer ver e o querer tocar. Há em Francisco algo muito material. Ela questionou o que há de material na vivência franciscana de hoje. Rezar em sequência, com o devocionário e as fontes, é belo e alimenta, mas não necessariamente provoca a profecia. Fazendo uma analogia com a imagem de um tanque: é preciso encher-se, mas também transbordar.
No presépio toda a criação esperava o criador. Francisco refaz esse movimento, coloca de novo a boa nova nos braços da Criação.
No celebrar do cardeal Tolentino Mendonça escreva que acredita em um DEus que dança: Que é um Deus que não se isenta nem permanece neutro diante de nossas histórias, que se faz comunidade, se faz perfeição e nos convida a fazer festa em toda mesa que partilha o pão em toda manifestação de amor na criação, em toda vez que a gente escolhe ser comunidade, se encontrar, fazer realidade, essa fraternidade universal.
Frei Oton: Na encarnação, Deus não exige que o mundo esteja perfeito para vir até nós: ele nos aceita como somos, e já nasce "no caminho", como um Deus peregrino que convida a caminhar junto.
3- Estigmas: olhar o mundo pelos olhos dos pobres
Gabriela Consolaro: Nos estigmas vemos um Francisco que se deixa afetar pela dor. A pergunta recorrente é quem são os chagados da sociedade de hoje, mas também olhar o mundo pelos olhos dos mais pobres e a gente precisa se colocar nesse lugar, do sentir a dor, do querer sofrer, do pensar como se eu não tivesse uma casa para morar, como se eu não tivesse comida para comer, trabalho para ir todos os dias, pensar a partir daqueles que somos chagados, olhar o mundo através dos olhos dos mais pobres.
No encontro da Economia de Francisco e Clara, em Assis (2022), o Papa Francisco propôs ir além de fazer para ou fazer com os pobres: olhar o mundo através dos olhos dos mais pobres. Como exemplos, citou as comunidades ribeirinhas com seus rios afetados por crimes socioambientais e os povos indígenas que sofrem com o garimpo ilegal.
4- Cântico das Criaturas: do amor pela criação ao compromisso
Gabriela Consolaro: O amor pela criação cantado por Francisco "precisa se transmutar em compromisso". Na Laudato Si', o Papa Francisco pede que a perda da biodiversidade seja sentida como mutilação do nosso próprio corpo. Para o Ailton Krenak, o rio Doce é um avô. Diante de temperaturas que chegam perto de 40 graus em setembro, a conversão ecológica não é opcional para o católico, e sim uma necessidade: é a forma contemporânea de viver a radicalidade franciscana.
Frei Oton: O Cântico das Criaturas nasceu de um homem doente, chagado e praticamente cego, que poderia apenas reclamar e, ainda assim, louva o sol, a lua e as estrelas. Francisco só destaca o lado bom das coisas, embora o sol possa estorricar, a água possa inundar e o vento possa devastar. Não quer fazer uma radiografia do mundo, e sim olhá-lo com ternura, bondade e beleza.
5- Trânsito: deixar morrer o que precisa morrer
Gabriela Consolaro: O Trânsito de Francisco é um sinal de entrega e de esperança. Mais do que abraçar a irmã morte, é deixar morrer o que precisa morrer em nós: as partes moldadas pela sociedade do consumo, do egocentrismo, da corrida e da competição, para dar lugar à fraternidade, à partilha e à comunhão.
Francisco, no fim da vida, diz: "Comecemos, irmãos, a servir ao Senhor Deus". O Trânsito nos chama a assumir a radicalidade, a convicção e o compromisso, sem medo de falar e de se posicionar.
Frei Oton: Francisco morreu rodeado de irmãos, em uma espécie de última ceia, sentindo-se amparado entre aqueles que amou e que o amaram.
6- A conversão é um processo, e a busca se faz em fraternidade
Gabriela Consolaro: O franciscano escolhe a fraternidade, ouvindo o Papa Francisco: "não deixem que vos roubem a comunidade".
Frei Oton: Propõe ler os últimos anos de Francisco como um único evento: o encontro de um apaixonado com aquele que sempre buscou. O jovem Francisco, depois de romper com a loja do pai, não fazia ideia do que seria de sua vida. Começou pelo que não queria (a espada, o balcão) e não era "o pior dos jovens de Assis".
Essa busca nunca foi individualista. No Testamento, Francisco reconhece que a chegada dos irmãos deu novo sentido à sua vida, mas a fraternidade franciscana não é um grupo fechado: é um grupo que se cuida e se põe a caminho e a serviço, como no cuidado com os leprosos. "Nós não somos e não podemos ser lobos solitários".
Entre a ruptura com a casa paterna e a chegada dos irmãos, passaram-se cerca de dois anos de angústia e solidão, mas também de abertura. Francisco não fala em conversão, e sim em "fazer penitência", no sentido de metanoia, de mudança de vida, o que o leva a mudar de lugar social. Hoje queremos respostas imediatas, enquanto Francisco soube conviver com o peso da dúvida e com a "nuvem do não saber".
7- Fraternidade é projeto em construção
Frei Oton: Segundo a Laudato Si' (nº 66), as três relações fundamentais, com Deus, com os outros e com a terra, se romperam também dentro de nós, e essa ruptura é o pecado. Francisco restabelece esses vínculos e recoloca o ser humano no conjunto da criação, já que hoje, ao falar de ecologia, costumamos pensar em animais, plantas e rios e deixar o humano de fora.
No Cântico das Criaturas: o sol é irmão, a lua é irmã, a terra é mãe e irmã, mas o ser humano não é chamado de irmão. Os homens aparecem como "os que perdoam", "os que sofrem tribulações". Isso mostra a fraternidade como um projeto a construir, não como um dom já dado. Daí a profecia: o anúncio de um sonho, a profecia da fraternidade.
Na Laudato Si' (nº 10), o Papa Francisco descreve Francisco de Assis como místico e peregrino que vivia em harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo, e em quem são inseparáveis o cuidado com a natureza, a justiça para com os pobres, o empenho social e a paz interior.
8- Leigos e Igreja: lugar próprio, fidelidade e profecia
Antônio Jucá: Gabriela, como os leigos podem viver seu compromisso em um mundo capitalista e individualista, em que a natureza é tratada como objeto, e pediu que ela falasse da "real economia".
Gabriela Consolaro: Os leigos escolhem estar no mundo, ter família e profissão, e professar ali sua fé e sua radicalidade. A Regra da OFS fala inclusive da vida pública e do posicionamento a partir da secularidade, e é preciso reivindicar com orgulho esse lugar, sem confundi-lo com o das outras ordens.
A Economia de Francisco e Clara é um jeito concreto de viver esse compromisso: transformar o modo de olhar o mundo, de consumir, o que e onde se compra, tanto no plano micro quanto na visão do grande arranjo socioeconômico. Que o mergulho nas fontes e na Regra não seja estéril, mas inflame e faça outros se enamorarem desse jeito de viver.
Antônio Jucá: Frei Oton, como o modelo de Francisco, que transforma a Igreja sem deixar de ser Igreja, ajuda a pensar o ser Igreja hoje. Os leigos, às vezes, assumem uma posição "infantilizada" na Igreja, esperando que os frades os conduzam pela mão. Os frades têm seu lugar, e os leigos têm o seu, igualmente fundamental.
Frei Oton: Francisco se entendia leigo e tinha uma atitude concreta com a Igreja de pedra e com a instituição: foi ao Papa e teve um cardeal protetor. Não era ingênuo: percebia as contradições de uma Igreja que refletia a sociedade feudal de seu tempo, mas sabia separar o que era negatividade passageira da Igreja, com "I" maiúsculo, comunidade dos seguidores de Jesus. Sua fidelidade passava também pela valorização da Eucaristia.
Por isso Francisco entendia a minoridade como submissão: onde proibissem a pregação, os frades não iriam. Nunca disse que "esse papa não me representa". A profecia franciscana não está em empunhar cartazes, mas em fazer diferente: ir à cruzada de um modo diferente, pregar de um modo diferente, estar entre as pessoas de um modo diferente.
Esse jeito de ser Igreja se parece com uma mesa, e é pouco hierárquico. Os capítulos franciscanos, em que todos votam, têm voz e podem discordar, e em que as funções passam de um para outro, já praticavam, há 800 anos, o que hoje se chama sinodalidade. Até as palavras mostram isso: não há prior, o primeiro, mas ministro e servo.
Sobre a Semana Franciscana 2026
A Semana Franciscana 2026 tem o tema “Jubileus Franciscanos: celebrar a memória, reacender o carisma” acontece de 28/09 a 02/10, das 20h às 21h30 pelo canal do Youtube ITFofm . A Semana é realizada em preparação para o dia de São Francisco de Assis, reunindo franciscanos e franciscanas de diferentes ramos da família franciscana, leigos, leigas e simpatizantes. Sob a organização do Instituto Teológico Franciscano (ITF) e em parceria com a Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, a Editora Vozes, o Centro Franciscano de Estudos e a Conferência da Família Franciscana do Brasil.
Por Frei Marcelo Tadeu, ofm.
