Publicações

Profetas de ontem e de hoje

02.07.2019
Artigos dos estudantes

Profetas de ontem e de hoje

“Ruge o leão: quem não temerá? Fala o Senhor Javé: quem não profetizará?” (Amós 3,8)

“Javé ruge de Sião” (Am 1,2). Como pensar na possibilidade que isto ocorra hoje, se até o filósofo anunciou a morte de Deus e o ser humano outorgou sua própria emancipação? Deus? Que Deus? Não precisamos mais dele! A cultura do indiferentismo e do individualismo, do “me basto e pronto”, do “meu corpo, minhas regras”... É isso que tem prevalecido na maioria das ocasiões. Quem precisa de Deus?
Javé rugiu em Sião, mas foi naquele tempo! Será que ruge ainda hoje? Será que alguém O ouve? Ou, será que esse rugido, na verdade, foi e é o ecoar da voz do profeta? E, se é assim – lembrando que o verdadeiro profeta só fala em nome de Deus –, os profetas estariam silenciados pelo autoreferrencialismo, mortos pelo indiferentismo? Onde está o rugido que outrora despertou o povo? Onde está aquele rugido que provoca e alerta? Onde estão os Hélderes, Dorothys, Oscares, Zildas, Chicos, Josimos, Miguéis... de hoje?
Na história do Livro Sagrado de Amós, cuja leitura indico, ecoam em seus poucos capítulos assuntos que nos são ainda atuais. O profeta era do sul (Judá), mas foi no norte (Israel) que anunciou. Onde estão os profetas do sul e do norte, do leste e do oeste de nossa pátria amada, Brasil? Ou, será que o correto é ainda esperarmos vir de fora a voz que nos colocará novamente no caminho da esperança!?
Onde estão os profetas de hoje? Senhor, onde estão eles? Ou melhor, por que não sou profeta eu mesmo? Afinal, não é graça do batismo o ser sacerdote, profeta e rei? Então, será que é minha voz que não é mais profética? Por quê?
O profeta de outrora afirmava: “eu não sou profeta, nem discípulo de profeta. Eu sou criador de gado e cultivador de sicômoros. Foi Javé quem me tirou de junto do rebanho, e me ordenou: Vá profetizar ao meu povo Israel” (Am 7,14-15). Insisto: será que devemos mesmo esperar vir de fora a palavra que anunciará a Palavra por excelência? Será que precisamos mesmo esperar “profetas”? E que profetas estamos esperando? Prontos, acabados, perfeitos, titulados? “Ruge o leão: quem não temerá? Fala o Senhor Javé: quem não profetizará?” (Am 3,8). Eu e Você somos os profetas dos tempos atuais, porque nestes tempos atuais Deus tem desejo de nos falar.
Deitados eternamente em berço esplêndido, muitas vezes, sentimos a tentação da vanglória: maior nação católica do mundo, esmagadora maioria de cristãos, rico e próspero de belezas e riquezas naturais. A grandeza do novo mundo também trouxe o que há de pior do antigo, e estes não estavam e nunca estiveram nos porões dos navios. Crescemos e, com isso, a desigualdade, a violência, a ganância daqueles que devem nos representar e servir. Mata-se sem levantar um bisturi sequer; tira-se a vida, sem nem mesmo jogar um giz em alguém. Flexibilizam-se leis em nome de um populismo inconsequente. A ganância nunca se distanciou de sua irmã gêmea, a corrupção. A falta do amor ao próximo alimentou suas filhas. O indiferentismo ensinou suas meninas a viverem livremente no meio de nós.
O profeta saiu de Judá para Israel. Podemos dizer que hoje a missão é profetizar aqui mesmo. Do sul para o nordeste, do norte para o sudeste, do centro-oeste para o sul..., sucessivamente. Basta de polarizações. Basta! Comecemos a vencer este terrível mal pela profecia. Mas, onde estão os profetas de hoje? Por que se calaram?
O profeta bíblico denunciava as desiguais estruturas sociais de seu tempo. A atual divisão de renda é mesmo justa? As reformas propostas atingem a todos de forma igualmente justa? Então, dentre tantas até aqui, fica mais uma pergunta: será que hoje não se faz mais necessário este tipo de denúncia?
Por outro lado, nos púlpitos canta-se, emociona-se, embelezam-se cada vez mais as liturgias. Nossas sacristias como que retornam ao passado, nossas cruzes de ouro ofuscam a vista ao serem fitadas. Nossos Templos, de Salomão ou de outros: será que realmente profetizam? Não se incomoda tanto quanto antes. Não se denuncia como outrora, não se questiona quanto deveríamos. E Javé continua a dizer: “Longe de mim o barulho de seus cânticos. Nem quero ouvir a música de suas liras. Eu quero, isto sim, é ver brotar o direito como água e correr a justiça como torrente que não seca” (Am 5,23-24). O profeta bíblico também denunciava as estruturas do culto religioso, indiferentes à realidade. Também podemos nos perguntar: será que hoje não se faz mais necessário este tipo de denúncia?
O profeta bíblico também tinha visões. Quais os profetas de hoje visualizam? Porque, apesar de tudo, eles existem, incomodam, são, como outrora, questionados e até investigados. E acreditem: as provocações aqui são para despertar os tantos outros que ainda estão adormecidos, pois o sonho que se sonha sozinho é apenas um sonho. Mas, o sonho que se sonha junto é o começo da realidade.
“Devemos preservar a soberania verde de nossa nação”, dizem eles! Como os personagens bíblicos Amasias, que confunde, e o Rei Jeroboão, que se fecha à realidade e se deixa enganar, dirão com outras palavras os governantes de hoje: “você nos incomoda, retire-se daqui”. Ainda existem Amasias e Jeroboão nos dias de hoje? Prefiro crer que existem os profetas, como também creio que ainda existem os que se colocam contra eles. Que sejam mais numerosos os que anunciam e denunciam, pois, uma única certeza ainda preservo: enquanto houver profetas existirá esperança. Aumentemos a esperança para nosso povo! Profetas, deixem-se tocar pela realidade e profetizem! 
Frei Adriano Borges de Lima, OFM Cap

Compartilhe:   

Contato

Endereço

Rua Coronel Veiga, 550 - Petrópolis – RJ | CEP: 25.655-151

Telefone: (24) 2243-9959


Newsletter

Cadastre seu e-mail e fique por dentro das novidades: