Institucional
02.04.2026
REFLEXÃO DO EVANGELHO PARA A QUINTA-FEIRA SANTA
A CEIA DO SENHOR: UMA ENTREGA DE AMOR
No anoitecer da Quinta-Feira Santa, a Igreja inicia o Tríduo Pascal com uma celebração que faz memória da Última Ceia do Senhor, na qual Cristo, assumindo a missão que o Pai lhe confiou até as últimas consequências, manifesta o dom gratuito do seu amor, entregando-se livremente para cumprir a vontade do Pai.
Quando se fala da Ceia do Senhor, associa-se rapidamente à instituição da Eucaristia. No entanto, outro fato importante, que por vezes passa despercebido, é o lava-pés. Um acontecimento não anula o outro; Eucaristia e lava-pés estão intimamente ligados, pois falam da mesma realidade: a doação amorosa do Senhor, que pede aos seus discípulos que façam este mesmo gesto.
O que esse gesto feito por Jesus tem a ensinar? O gesto de lavar os pés, narrado pelo evangelista João, era uma tarefa reservada aos servos, e Jesus assume essa posição. Abaixando-se para lavar os pés, Jesus recorda a sua origem: sendo de condição divina, humilhou-se, assumindo a condição humana para reconduzir a humanidade à glória do Pai.
Jesus levanta-se da mesa, tira o manto, cinge-se com uma toalha e começa a lavar os pés de cada um dos seus discípulos. Esse gesto não é apenas de humildade, mas uma nítida apresentação da razão de sua missão: o Senhor que, para resgatar os servos, faz-se Servo.
Até o último momento, Jesus busca apresentar quem Ele é e qual é a sua missão; mesmo assim, os discípulos ainda não compreendem o que está acontecendo. Eles possuem uma visão turva e idealizada de seu Mestre: um rei poderoso e glorioso. Não compreendem que o seu Reino é o amor, seu poder é o serviço e sua glória é a humildade. Algumas comunidades, na atualidade, também possuem essa visão turva e idealizada do Senhor e não conseguem compreender que Ele é Servo.
Pedro, junto dos outros discípulos, não compreende o que está acontecendo e questiona o Mestre sobre o seu gesto. A resposta de Jesus é que, naquele momento, aquilo de fato parecia um absurdo, mas depois faria sentido. O lava-pés torna-se um prelúdio do que aconteceria na cruz. A cena humilhante do Mestre lavando os pés de seus discípulos é uma ação simbólica que antecipa o Cristo crucificado, purificando a humanidade caída com o sangue e a água que vertem de seu lado aberto, conduzindo-a à ressurreição.
Terminando de lavar os pés dos discípulos, Jesus veste o manto e explica o sentido da sua ação. Pede que seus discípulos lavem os pés uns dos outros. Ele deixa o exemplo para que seus seguidores façam o mesmo. Na verdade, o gesto simbólico de lavar os pés é a síntese da missão de Jesus. Apresenta-se como uma chave de leitura para a vida daqueles que buscam seguir as pegadas do Ressuscitado. Torna-se um choque de realidade para quem busca um Cristo idealizado.
Lavar os pés uns dos outros, a exemplo de Jesus, é assumir na vida aquilo que São Francisco de Assis, com maestria, viveu. O Santo de Assis empenhou-se, por ação do Espírito, em encarnar em sua vida as atitudes de Cristo, tornando-se menor, servo de todos e irmão de todas as criaturas. Deixou que o Evangelho o desestabilizasse para assumir, na concretude da sua vida, não por mera imitação, mas de forma existencial, a palavra e os gestos de Jesus até o extremo.
Na Missa da Ceia do Senhor há o rito do lava-pés, no qual o presidente repete o gesto de Jesus Cristo, lavando os pés de alguns membros da comunidade. Este momento não é uma representação cênica, mas um sinal que recorda à comunidade que esse gesto de amor e entrega do Senhor, que se concretiza na cruz, deve ser encarnado tanto na comunidade reunida quanto na sociedade.
Esse gesto relaciona-se com aquilo que também ocorre nesta mesma ceia: a instituição da Eucaristia. A Eucaristia é a entrega total de Cristo por amor, que pede que seus discípulos também entreguem sua vida por amor. Não há verdadeira participação na Eucaristia sem a disposição para o serviço. Não há comunhão com o Corpo de Cristo quando, na vida, não se comunga com a missão de Cristo. O Corpo de Cristo que se reparte no altar exige uma vida repartida no cotidiano. Não basta comungar o Corpo de Cristo; é necessário tornar-se corpo entregue. Assim, a vida de cada discípulo torna-se uma memória viva do Mestre em suas palavras e ações.
Portanto, a Quinta-Feira Santa, com a sua liturgia, revela que a glória de Deus não se manifesta no poder dominador, mas no amor-serviço. Celebrar bem este dia é deixar Cristo lavar nossos pés, ou seja, acolher seu amor que purifica e, simultaneamente, aprender a lavar os pés dos irmãos e irmãs.
Frei Bruno Almeida de Mello, OFM.
