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REFLEXÃO DO EVANGELHO PARA A TERÇA-FEIRA SANTA

31.03.2026
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REFLEXÃO DO EVANGELHO PARA A TERÇA-FEIRA SANTA

“Agora foi glorificado o Filho do homem, e Deus foi glorificado nele. Se Deus foi glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo. 
(Jo 13, 31-32)

     
    No itinerário que nos prepara para celebrar a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, somos levados pela liturgia a meditar no Cântico do Servo Sofredor, por onde podemos contemplar os mistérios da missão salvífica de Cristo, e nos Evangelhos que retratam as últimas cenas de Jesus junto dos seus, e que nos preparam o coração para a iminência dos mistérios a serem celebrados. Nesse sentido, na iminência da Hora do Filho do Homem, a hora da Cruz, que é a hora de nossa salvação, João apresenta a cena da Última Ceia, na qual vemos o anúncio da traição de Judas, da negação de Pedro e o discurso da glorificação do Filho do Homem.


  Logo após Jesus ficar profundamente comovido e fazer o anúncio de que alguém dentre os doze iria traí-lo, nosso olhar é atraído para a pessoa do Discípulo Amado, o mais novo dentre os doze, que estava recostado ao lado de Cristo e que, sobre o peito dele, reclina a cabeça a pedido de Simão Pedro para perguntar quem seria o traidor.


  Após isso, a cena conduz o nosso olhar para a pessoa de Judas. Ele, assim como os outros que ali compunham o número dos doze, fora chamado pessoalmente por Jesus, por ele escolhido e preparado durante três anos. Tanto o é que, no sinal do pão passado no molho, no qual está significado a proximidade íntima e afetiva daqueles que comem juntos à mesa, Jesus, além de demonstrar profunda intimidade com Judas, se comove interiormente e quer, ainda em um último gesto de intimidade, resgatar Judas para si. Contudo, o coração de Judas está corrompido e endurecido; seus olhos e ouvidos se fecharam e não podem mais perceber os atos de amor e misericórdia do Mestre. Judas está dividido a tal ponto de não poder mais se reintegrar; Satanás tomou-lhe o coração.


  Depois de Judas se levantar e sair da mesa, João nos apresenta o discurso de Jesus sobre a glorificação do Filho do Homem e o anúncio de sua paixão, e então nosso olhar é convidado a se dirigir à pessoa de Pedro, que, por não compreender o que Jesus falava, trava um diálogo obstinado, no qual questiona Jesus e lhe faz promessas, porque não quer seguir o Mestre “mais tarde”, como Jesus mesmo lhe disse, mas agora! Entretanto, o Mestre conhece os que escolheu e repreende Pedro: “O galo não cantará antes que me tenhas negado três vezes”.


  Ao nos prepararmos para celebrar o Tríduo Santo da Páscoa do Senhor, o que essa cena apresentada pelo Evangelista João quer nos levar a refletir? Na cena descrita aqui por João, paira no ar um espírito de incompreensão. Três anos os discípulos estiveram com Jesus, andando com ele, falando com ele, convivendo com ele, comendo com ele, aprendendo com ele, e, entretanto, eles ainda não conseguem entender a missão de Jesus. Eles ainda estão presos em uma visão do Messias que vem para reinar e governar Israel pela força política e militar. Seus corações ainda estão “envelhecidos” e não conseguem escutar a novidade que brota do coração de Cristo.


  Por isso a incompreensão, a dúvida, a traição. A humanidade de Jesus lhes confunde, a ponto de deixar turva a vista e nebuloso o coração. Eles não podem compreender o mistério da glorificação do Filho do Homem. É por isso que Judas trai, porque se deixa corromper por seus ideais do reino que estão muito ligados à posse, ao utilitarismo, à ascensão social e ao acúmulo de bens, a ponto de seu coração ser todo endurecido, e ele, todo dividido, não poder mais ver, ouvir e tocar o coração daquele que não quer dar nada além de Si mesmo, e que quer lhe oferecer sua vida e seu amor. É por isso que Pedro assume uma posição obstinada, porque ainda tem dúvidas. Diante dos lábios que proclamam “Eu darei a minha vida por ti!”, há ainda um coração que tem medo da morte, e que por isso é capaz até de negar.


    Em Pedro, podemos encontrar cada um de nós, que, por não compreendermos que a glória do Filho do Homem não exclui o sofrimento, a dor, o abandono, e as contrariedades e contradições próprias de nossa humanidade, a ponto de se comover desde dentro, abraçando toda a nossa pequenez até o escândalo da cruz, temos que nos deparar cotidianamente com nossas dúvidas diante do caminho, com nosso medo diante da incerteza e do perigo, com nossa vergonha diante de nossa vulnerabilidade e pequenez, que, muitas vezes, para não correr o risco de morrer, diz “Não, eu nunca andei com esse homem”, mesmo tendo lhe jurado dar a vida.


  Em Judas, nos deparamos com um perigo real da nossa humanidade: por querer só o poder, o ter e a glória de um reino criado para corresponder às nossas expectativas e necessidades individuais, corre-se o sério risco de se corromper, de se perder no vazio da falta de sentido, de se fragmentar ao ponto de ver obscurecido o coração, de negligenciar o perdão e a graça, de se desesperar e de se fechar à salvação, mesmo estando ao lado de Jesus.


  Por fim, devemos, como seguidores de Cristo, cultivar em nós a atitude do Discípulo Amado, que, mesmo sendo o mais novo, e que, por isso, muito provavelmente devia entender pouco e se sentir perdido e confuso diante de tudo que ali se passava, não hesita em reclinar a cabeça sobre o peito de Jesus, para escutá-lo de perto, para perscrutar desde as entranhas a Palavra da Vida e ser tocado pelo coração do Mestre que é, e se doa todo, em vida e amor.


  Assim, interiormente iluminados pela graça, com o coração integrado ao coração de Deus, possamos ver os sinais de graça que se espalham e se multiplicam na vida do mundo, e compreender que a glória daquele que vem para “restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os remanescentes de Israel” não exclui o sofrimento e as contradições próprias de nossa humanidade, mas antes os acolhe, os integra, os eleva e os plenifica, devolvendo-nos, pela graça, a originalidade e a integridade que o pecado nos roubou.


  Educados pelo coração de Cristo, que cotidianamente se doa por amor de nós, possamos, como Pedro, nos deixar tocar por seu olhar misericordioso que ama desde as entranhas, nos arrepender das vezes que o negamos, e fazer da doação da vida algo maior que nossos discursos ou palavras, mas uma atitude verdadeira, para que, por Cristo, com Cristo e em Cristo, nossa boca anuncie a sua justiça e, pelos méritos de sua encarnação, paixão e morte, brilhe também por nós a glória da Ressurreição, e Ele seja hoje e sempre luz das nações, e que a sua salvação chegue até os confins do coração da humanidade e da terra inteira.
 

Frei Matheus Pereira Sanches, OFM. 

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