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Estar do lado dos índios e dos pobres é estar em comunhão com a Igreja

12.11.2019
Notícias

Estar do lado dos índios e dos pobres é estar em comunhão com a Igreja

 Petrópolis (RJ) – “Defender a Amazônia e a vida dos povos originários, trabalhar pela demarcação das terras, pelo cuidado com a Floresta e com as populações que vivem naquele solo é a posição oficial da Igreja. Neste aspecto, não há escolha: ou se caminha com a Igreja ou se rompe a comunhão com ela”. Para Dom Evaristo Spengler, frade franciscano e bispo da Prelazia do Marajó, no Estado do Pará, o Sínodo para a Amazônia, cuja assembleia se concluiu no último dia 27 de outubro, em Roma, vem deixar claro que, diante dos desafios e das muitas disputas que têm atingido o território amazônico nos últimos tempos, a Igreja possui um posicionamento claro e incisivo em favor dos mais frágeis. “Estar do lado dos índios e dos pobres é estar em Comunhão com a Igreja”, frisou. Dom Evaristo foi o conferencista que abriu o Simpósio sobre o Sínodo Para a Amazônia, promovido pelo Instituto Teológico Franciscano, em Petrópolis, RJ, iniciado nesta segunda-feira, dia 11 de novembro.
No início da exposição, o bispo aproveitou para agradecer ao Instituto pelo convite e destacou o fato de o ITF ter tido importância fundamental em sua formação pessoal, cristã e ministerial. “Na qualidade de ex-aluno, reconheço que o ITF deu uma contribuição fundamental para que eu fosse quem hoje sou”, disse, em tom de gratidão. Na introdução de sua fala, que teve como tema “As disputas territoriais na Amazônia”, Dom Evaristo assinalou que o conceito de território diz respeito ao lugar onde a pessoa constrói sua vida, suas relações e sua história, e por isso trata-se de algo importante e até sagrado na vida do ser humano. Destacou ainda que, na Amazônia, são diversos os povos originários (indígenas), além de camponeses, quilombolas e ribeirinhos, que aprenderam a viver uma relação de reciprocidade e cumplicidade com a floresta, a que se convencionou chamar de “florestania”, em referência ao termo cidadania. “A relação com a floresta se transforma de acordo com a experiência que se faz em relação a ela, sendo diferente para quem faz um rápido sobrevoo, para quem navega pelas águas dos rios e para quem vive no local. Necessariamente, estas pessoas terão uma lógica diferente ao compreender a importância da preservação do local”, explicou.
Em seguida, apresentou alguns dados que dão conta da dimensão continental do território, recordando que a Amazônia possui 3.300 km de extensão Leste-Oeste e 2.000 Km de Norte a Sul, com área que se espalha sobre nove dos treze países da América do Sul. Também recordou que o Amazonas, principal Rio da Bacia Amazônia, é o maior do mundo em volume de água e também em extensão. Fazendo referência a uma descrição realizada pelo escritor e ativista Roberto Malvezzi, conhecido como “Gogó”, Dom Evaristo listou “cinco dádivas da Amazônia”, reforçando a importância deste bioma para a manutenção e o equilíbrio da vida no planeta. São elas: o ciclo das águas, que destaca o deslocamento de um verdadeiro “rio aéreo” proveniente da evaporação promovida pelas árvores e que é trazido pelos ventos, proporcionando chuvas e umidade para as regiões Sul e Sudeste; a retenção de milhões de toneladas de carbono; a regulação do clima; a riqueza da biodiversidade animal e vegetal e a cultura e a vida dos povos originários. “A Amazônia já foi considerada o ‘pulmão do mundo’. Hoje, a ciência já deu um passo além, e a define como ‘coração biológico do mundo’, referindo-se ao dinamismo, à diversidade e à exuberância da vida que pulsa neste território”, explicou.

O bispo ainda ressaltou a clareza que existe em se identificar, no território amazônico, a disputa entre dois modelos de desenvolvimento: o predatório e o socioambiental. O primeiro, das grandes corporações e do poder financeiro, parte do pressuposto da exploração exaustiva dos recursos da região em vista do lucro. Baseia-se na mineração, na pecuária, na monocultura, na extração de madeira e em outras atividades que trazem consigo um rastro de destruição e morte da floresta, do meio ambiente e de diversos mártires que já tombaram na defesa da Amazônia. O segundo, que pressupõe uma convivência harmoniosa com a “floresta em pé”, beneficia os programas de origem comunitária e local, que buscam promover os povos originários e promover um desenvolvimento compatível com a preservação do bioma. Entre estes dois modelos, segundo o bispo, não há dúvidas de que a Igreja apoia, defende e promove o modelo socioambiental.

A EVANGELIZAÇÃO E A MISSÃO DA IGREJA NA AMAZÔNIA
Logo após a exposição, houve momento para partilhas e perguntas, conduzido pelos professores Breno Herrera da Silva (doutor em Ecologia Social) e Moema Miranda (Mestra em Antropologia e participante do Sínodo). Para o Professor Breno, embora haja ainda certo questionamento entre alguns grupos, não há dúvida de que o cuidado com a Casa Comum e a preservação do meio ambiente sejam temas pertinentes à missão da Igreja. “Todas questões trazem consigo uma ameaça global e, portanto, faz parte da “catolicidade” da Igreja ocupar-se desta preocupação comum, tendo em vista que ‘católico’ significa universal”, lembrou.
A Professora Moema Miranda, que também faz parte da Ordem Franciscana Secular, destacou a importância de uma reflexão atenta sobre o que significa “evangelizar” no contexto da questão amazônica. Segundo ela, faz-se necessário um espírito sincero de conversão, também pastoral, a fim de que se possam encontrar as respostas oportunas aos muitos desafios que se apresentam à Igreja na região. “Ao trabalhar pela defesa da vida na Amazônia, a Igreja está trabalhando pela defesa da vida do planeta e de toda a humanidade”, garantiu a professora. Recordando uma preocupação recorrente durante o Sínodo e que também foi mencionada pelo Papa Francisco, Dom Evaristo destacou que, um dos grandes desafios eclesiais na Amazônia é converter-se de uma pastoral de visitas para uma pastoral de presença. “O primeiro modo, de visitar e oferecer esporadicamente os sacramentos às comunidades, é o que tem sido adotado atualmente. Importante seria pensarmos em modalidades que garantissem uma frequência mais efetiva e cotidiana da Igreja junto às comunidades”, frisou.

Nesta segunda, a partir das 19h30, haverá uma Noite Cultural com o Coral dos Canarinhos de Petrópolis e também uma exposição da Professora Moema Miranda. Na terça-feira, dia 12, o tema do Simpósio será “Desafios da Evangelização na Amazônia”, com exposição de Dom Bernardo Johannes Bahlmann, OFM, frade franciscano e bispo da Diocese de Óbidos, PA, com mediação dos professores Frei Fábio César Gomes e Frei Sandro Roberto da Costa.

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