Institucional
16.01.2018
O caráter práxico-social da teologia. Tópicos fundamentais de epistemologia teológica
AQUINO JR, Francisco de. O caráter práxico-social da teologia. Tópicos fundamentais de epistemologia teológica. São Paulo: Loyola, 2017. 136 p., 160 x 230 mm – ISBN 978-85-15-04439-0.
Nesse tempo em que cresce a complexidade de questões não só em torno da inteligibilidade e da relevância da teologia, mas de sua mesma base, a fé e sua eficácia, esta obra do teólogo cearense Francisco de Aquino Junior retoma seu percurso de esclarecimento epistemológico, que provém de seus estudos de mestrado e doutorado, e se estende por diversas publicações de grande densidade e autoridade. Ele tem ampliado de diferentes maneiras, com exame de autores e obras, a fundamentação e a reflexão em torno da epistemologia teológica, e tem sublinhado a necessidade de clareza de método em teologia especificamente cristã.
Para não nutrir expectativas muito abertas, é importante sublinhar de saída que nosso Autor passa a navalha de Ockham: trata-se rigorosamente da teologia “cristã”, e da teologia cristã desde a fonte mesma da fé cristã ou do cristianismo: a mesmíssima proposta de Jesus, ou seja, o Reino de Deus. Antes de ser uma categoria teológica, o “Reino de Deus”, expressão central da pregação de Jesus, revela a aproximação de Deus e, portanto, se torna de fato a expressão privilegiada da epistemologia teológica cristã, da hermenêutica, do discernimento e da heurística para um trabalho autêntico em teologia cristã e seu diálogo com eventuais outras teologias. O restante acumulado na história do cristianismo pode ajudar ou confundir e, de alguma forma, deve, por isso mesmo, ser também examinado, mas para que uma teologia cristã seja um modo realmente cristão de falar de Deus, esse é o método, que está em intrínseca relação com a construção epistemológica: o reinado de Deus assim como se anunciou e se efetivou a partir de Jesus, na base. Na introdução, o Autor adianta, como em “olho da matéria”, a tese central do livro, que une os capítulos: a teologia como ciência ou teoria da práxis teologal, no sentido de momento hermenêutico dessa práxis, momento “consciente e reflexo” (p. 17), tese que lembra seus mestres Ignacio Ellacuría, Xavier Zubiri e, nos começos da Teologia da Libertação, o próprio Gustavo Gutierrez.
Este livro deve ser considerado em conjunto com seus três livros anteriores sobre o assunto em questão: A teologia como intelecção do reinado de Deus: O método da teologia da libertação segundo Ignacio Ellacuría (São Paulo: Loyola, 2010), A dimensão socioestrutural do reinado de Deus: Escritos de teologia social (São Paulo: Paulinas, 2011) e Teoria teológica – práxis teologal: sobre o método da Teologia da Libertação (São Paulo: Paulinas, 2012). Ellacuría aparece como o autor principal de sua já longa pesquisa. E, como se costuma considerar, a tese de doutorado, com tudo o que ela significa antes da pesquisa e depois em sua recepção, é um marco acadêmico no currículo intelectual e biográfico, também no caso de Francisco de Aquino Junior. Mas a escolha do assunto não começou na necessidade de se ter um bom assunto para doutorado acadêmico. Começou antes, de tal forma que o doutorado foi ocasião para aprofundar o que já vinha trabalhando em sua dissertação de mestrado e esta, por sua vez, no contexto da teologia produzida no Brasil e, de modo mais geral, na América Latina, depois do Concílio Vaticano II. Assim, este livro se inscreve na contribuição que o Autor vem dando ao método. Ele mesmo reconhece que Clodovis Boff tem sido uma das mais significativas contribuições para o método em teologia a partir da América Latina, mas foi justamente em nosso debate com Clodovis, no qual também me envolvi inteiramente, que se mostrou a importância da contribuição dos estudos e das publicações de Francisco Aquino Junior, confrontando diferentes métodos e autores diversos em cada percurso. O contraponto de Ellacuría, no caso, se revelou “rocha firme” e óbvia, porque não começa na confiança e na coerência da razão, mas no testemunho da narrativa evangélica – o Reino de Deus anunciado por Jesus e colocado à disposição dos pobres.[1]
Este livro resulta da coletânea de seus artigos publicados na Perspectiva Teológica (PT) e nesta Revista Eclesiástica Brasileira (REB). Assim, o Autor começa com um levantamento do que, nos documentos do Concílio Vaticano II, se pode inferir como esboço de um método teológico diante da urgência de renovação (REB 294 [2014] 426-435). Embora o Autor o tenha publicado depois, na verdade este assunto prepara o que podemos considerar alicerce da teologia, posto no segundo capítulo do livro.
O segundo capítulo tem como sugestivo título O reinado de Deus como assunto da teologia cristã (REB 281 (2011) 47-68). Nesta parte do texto o Autor busca esclarecer o que em teologia se poderia chamar de categoria afortunada, oferecida justamente à teologia pelo acesso a Deus que o mesmo Jesus abriu à compreensão – no sentido de recepção e de experiência: o Reino de Deus. Assim, em tempos de hegemonia do silêncio ou do eclipse de Deus em âmbito científico-acadêmico e cultural, político e econômico, há um “assunto” básico e um método para abordar a questão e a relevância de Deus.
É interessante observar o cuidado e o rigor metodológico do próprio Autor neste como nos capítulos que se seguem: aborda “comendo pelas bordas”, ou seja, trabalhando primeiro o que é mais geral, através do que em escolástica se diz definitio terminorum. Assim, garante a solidez do discurso, sobretudo quando deve aprofundar em termos teóricos. O que é mesmo “assunto”? O que é mesmo “teologia”? Como pensar o “acesso” a Deus sem incorrer nas críticas dos mestres da suspeita? E seguindo: se Jesus é reconhecido como o acesso “cristão” a Deus, quais as condições que temos de “acesso a Jesus” depois de tanta discussão em torno do Jesus histórico por trás do Jesus ou do Cristo da fé? E, por outro lado, como levar em conta os “sinais dos tempos” – em primeiro lugar sobre o que é mesmo um sinal dos tempos e o que está sinalizando hoje? E como, na esteira da indicação conciliar, colocar em conexão o Reino de Deus de Jesus e os sinais dos tempos hoje?
Bem, passadas a limpo tais questões – sempre com a navalha de Ockham – desfilam e se justificam as teses centrais de todo o livro: a historicidade – inclusive do conhecimento metafísico – e o acesso histórico na atuação justamente histórica de Jesus. Sua atuação como “práxis do Reino de Deus” ou como ação e senhorio próprios de Deus, e sua continuidade histórica na história cristã que convoca a Igreja, seu caráter englobante e totalizador, necessariamente aberto à dimensão escatológica. E uma das questões mais instigantes: o critério objetivo de verificação histórica: a justiça reconhecida e feita aos pobres. Diante disso, pode-se até afirmar que o Reino de Deus, o acesso a Deus, e, portanto, uma boa teologia permanecem num fio frágil, mais um desejo, ardente e justo, do “ainda não”, do que na alegria e na celebração do “já agora”. Mas, este é o escândalo e a loucura no âmago do autêntico cristianismo. O Autor o sugere com outras palavras. De qualquer forma, depois de repassar e citar autores renomados da cristologia do século XX, Francisco de Aquino Junior lembra autores da Teologia da Libertação e a constatação firme que está no coração desta teologia: o caráter central do Reino de Deus disponível para os pobres para uma construção sistemática da teologia e para a sua epistemologia. Em relação ao Concílio Vaticano II, trazido no primeiro capítulo, pode-se concluir que esta teologia, desenvolvida na América Latina, neste ponto, não é propriamente uma ruptura epistemológica, mas um desenvolvimento consequente e coerente com os princípios esboçados e indicados no Concílio.
A partir do terceiro capítulo, no entanto, o Autor mostra em que consiste a originalidade e a ruptura epistemológica desta forma de fazer teologia em confronto com muita teologia até milenar no cristianismo: seu caráter práxico, texto publicado em Perspectiva Teológica 119 (2011) 83-102. Como sempre, aborda desde o mais geral, o problema filosófico da relação entre teoria e práxis. Utilizando Zubiri e Ellacuría, conclui pela teoria como um momento da práxis, como o inteligir e o sentir no atuar, nem antes e nem depois. Neste ponto examina a unidade da teologia bíblica e discute a tendência esquizoide do pensamento ocidental e, consequentemente, da teologia ocidental de matriz grega. Examina também os esforços de superação e de renovação teológica, apontando para a insuficiência das indicações de Clodovis Boff, que permeneceria ainda muito preso à racionalidade formal de Atenas. Não propõe a volta a Jerusalém de Tertuliano, que em seu tempo escorregou para o que hoje chamaríamos de fundamentalismo e espiritualismo, de volta, ironicamente, ao dualismo no qual os gregos foram mestres. Sempre com Ellacuría e Zubiri, Aquino Junior sublinha o caráter práxico da teologia seja na relação à realidade e ao assunto da mesma – o Reino de Deus disponível aos pobres se entende ao se praticar – seja em sua sistematização. Daí o caráter conscientemente interessado da teologia e sua verificação histórica que desanuvia de possíveis máscaras ideológicas. Sem este assentamento na realidade do Reino de Deus verificado historicamente na relação com os pobres, citando Ellacuría, como uma pérola crítica à p. 72, teríamos “uma teologia absolutamente irrelevante para uma situação histórica determinada, além de despotencializar a práxis teologal requerida (que) deixa de ser intelectus fidei para ser um estudo de inoperatividades”.
Nos dois capítulos seguintes, o caráter social da teologia (Perspectiva Teológica 121 [2011] 333-352), e o lugar social da teologia (Perspectiva Teológica 125 [2013] 127-145), Aquino Junior explana, em primeiro lugar, o caráter social da condição humana e, consequentemente, da revelação e da salvação, portanto o caráter social da teologia, sem, é claro, reduzir a teologia ao social. De qualquer forma, a dimensão litúrgica, estética e mística também tem um caráter social e cultural que precisa ser considerado, segundo sua insistência, até no que é considerado “o mais espiritual”. Isso significa que a teologia entra nos interesses, nos embates ideológicos, na realidade conflitiva da sociedade real, não pode se dar o luxo de uma metafísica pairando num idealismo acima do mundo real. Isso, lembra, tem consequências eclesiais e necessidade de opções pastorais. Aliás, a experiência histórica da Igreja Católica na América Latina mostra bem tal conexão intrínseca ao calcar a opção preferencial pelos pobres como prioridade pastoral desde Medellín. A Teologia da Libertação não se deu nem antes e nem depois, mas concomitantemente a este tempo conflitivo e criativo. Quanto ao lugar social, o Autor lembra o nosso debate com Clodovis Boff, já mencionado acima, e a diferença entre Melchor Cano, com seus loci theologici, e Ellacuría, com sua distinção entre “fontes” e “lugares”, também adotada por Jon Sobrino: os textos, que para Cano são lugares, para os dois jesuítas de San Salvador são “fontes” de teologia, ou seja, materiais para a elaboração teológica. Mas, “lugar”, como um “material vivente”, é o lugar social em que a teologia é elaborada, a entrada do contexto não como algo “pré-teológico” (Clodovis Boff), ou pós-teológico como aplicação pastoral do que se pensou em gabinete segundo crenças idealistas, mas contexto social e realidade falante que entra na própria constituição da teologia, uma vez que esta é momento teórico de uma práxis. À pg. 110, o Autor anota que a importância do lugar social foi desvendada pelo diálogo com as ciências sociais, e que a importância da realidade ou do ‘mundo’ dos pobres foi desvendada pelo retorno à fonte bíblica como “alma da teologia”. Talvez se pudesse usar, na mesma lógica metafórica, que o lugar social constitui o “corpo da teologia”.
No último capítulo, o Autor busca aclarar a relação entre teologia e ciências sociais, relação que caracteriza o percurso da teologia na América Latina. Para isso, utiliza quatro autores, mostrando que Gustavo Gutierrez e Clodovis Boff se inclinam para uma relação propedêutica, quase de ancilla theologiae por parte das ciências sociais, enquanto Juan Luís Segundo e Ignacio Ellacuría mostram o aspecto desideologizador e constituinte do pensamento teológico por parte das mesmas ciências sociais, portanto, segundo os últimos dois, constituem com as fontes da teologia o seu aspecto crítico e profético.
No final da introdução somos avisados de que se encontrariam repetições ao longo do livro por se tratar de uma coletânea de artigos, mas estas repetições acabam por reforçar o que é mais essencial, a título de refrão. Ao final fica absolutamente claro o que o Autor comenta à p. 17: que “certamente interessa à teologia o sentido das afirmações (hermenêutica), mas em função de sua realização histórica, como momento do processo de realização da salvação (práxis). Não parece evidente nem tranquila a tese convencional e hegemônica da teologia como hermenêutica. (…) Este momento hermenêutico, enquanto momento, é parte de um processo mais amplo e complexo que tem um caráter fundamentalmente práxico”. Esta me parece uma originalidade que, embora lida superficialmente soe simples, na realidade é uma questão de paradigma e uma ruptura epistemológica com a teologia pós-conciliar e pós-kantiana da Europa que buscou, sobretudo, responder à questão do sentido.
Francisco Aquino Junior, neste livro, como em todos os seus escritos de epistemologia e metodologia, tem se mostrado fiel aos autores estudados. Faz lembrar a fidelidade de Jon Sobrino, companheiro de Ellacuría, em San Salvador, ao publicar no Brasil seu primeiro texto de cristologia, pela Vozes, em 1983 – Cristologia desde a América Latina. Os alunos mais afoitos pensavam que iriam ler um texto facilitado. Na verdade, justamente para demonstrar a seriedade cristã e cristológica da leitura “desde o mundo dos pobres”, Sobrino relia as fontes, utilizando uma argumentação com lógica firme e em alguns momentos até férrea, como quem põe num percurso de corredor sem escapatórias, desideologizando e pontuando com tal clareza que parecia dizer: se quiser ser uma teologia cristã, o caminho é este, não há outro! Em seu livro, Francisco Aquino Junior utiliza a verve proverbial do cearense, que pode se dar à poesia e à literatura, mas com o realismo solar e a lógica coerente e transparente que surpreende Aristóteles. Como conjunto de textos de epistemologia teológica, certamente é um marco na tarefa da teologia, e não só a latino-americana. – Porto Alegre, 17 de julho de 2017.
Luiz Carlos Susin
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[1] Sobre o debate com Clodovis Boff, Cf. REB 270, 271, 272, 274; Jornal de Opinião 1025 (26/01 a 01/02 de 2009); Adista de 07/02/2009. NOBLE Tim, The Poor in Liberation Theology. Pathway to God or ideological construct? London/New York: Routledge, 2014.
