Institucional

O que Deus uniu o homem não separe

05.10.2018
Liturgia

O que Deus uniu o homem não separe

27º Domingo do Tempo Comum, ano B

Oração: “Ó Deus eterno e todo-poderoso, que nos concedeis no vosso imenso amor de Pai mais do que merecemos e pedimos, derramai sobre nós a vossa misericórdia, perdoando o que nos pesa na consciência e dando-nos mais do que ousamos pedir”.


1. Primeira leitura: Gn 2,18-24
E eles serão uma só carne.

Na Bíblia, temos duas narrativas da criação do ser humano (Adam).
A primeira(Gn 1), chamada sacerdotal, colocano sexto dia a criação dos animais (v. 24-25) e do ser humano, coroando toda a obra da criação. A criação do ser humano é descrita com solenidade: “Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança [...]. Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea ele os criou” (v. 26-28). Em vista da procriação, o ser humano é especificado como “macho e fêmea”; por isso,recebe a bênção divina (v. 28).
A segunda narrativa (Gn 2) não se preocupa com a criação do mundo, mas com o ser humanoe sua relação com as demais criaturas criadas no 6º dia, ligadas ao mesmo chão (Gn 1,24-31). O ser humano e os animais são feitos da terra, da terra brotam as árvores do jardim,plantado por Deus,e da terranascem os rios. A preocupação da narrativa é mostrar que, no projeto divino,o ser humano convive em harmonia,no mesmo ambiente,com as plantas e os animais. Com as plantas e os animais, bebe da mesma água, onde os peixes vivem. Com os seres vivos respira o mesmo ar, por onde as aves e os pássaros voam; assim participa do mesmo “ecossistema”.Apesar disso,Deus diz: “Não é bom que o ser humano esteja só. Vou fazer-lhe uma auxiliar que lhe corresponda” (v. 18). De fato embora feitos da mesma terra, os animais não são a companhia adequada para o ser humano. Deus coloca, então, o ser humano em sono profundo, tira-lhe uma costela e a transforma em mulher. Depois, assim apresenta-a ao ser humano. Então ele exclama: “Desta vez, sim, é osso dos meus ossos e carne de minha carne!” A expressão indica parentesco. A partir daí, o ser humano é visto como “homem” e “mulher”, ele com ela, numa comunhão de vida e de amor. Diante dela, o ser humano se reconhece como “homem”, ela como “mulher”. Ambos, ele e ela, são um auxílio necessário um para o outro. Esta comunhão de amor, homem-mulher, é até mais forte que a união com os pais: “Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne”.

Salmo responsorial: Sl 127
O Senhor te abençoe de Sião, cada dia de tua vida.


2. Segunda leitura: Hb 2,9-11
Tanto o Santificador, quanto os santificados
descendem do mesmo ancestral.

O autor escreve para judeu-cristãos que viviam entre os pagãos. Os cristãos sofriam oposição por parte de pagãos e de judeus. Os sofrimentos e o adiamento da 2ª vinda do Senhor abalavama fé em Cristo e a esperançaem sua vinda. Aos desanimados o autor lembra que o Filho de Deus, assumindo a natureza humana, tornou-se um pouco menor do que os anjos. Solidarizou-se com os seres humanos, criados um pouco abaixo dos anjos (Sl 8,6). Tornou-se, assim, nosso irmão, pois o “Santificador e os santificados” têm os mesmos ancestrais. O “Santificador”/Jesus, nosso irmão, morreu por nós e foi glorificado, para “conduzir muitos filhos à glória” (cf. Fl 2,5-11). São palavras que ainda hoje reanimam nossa fé e reavivam nossa esperança.

Aclamação ao Evangelho: 1Jo 4,12
Se amarmos uns aos outros, Deus em nós há de estar;
E o seu amor em nós se aperfeiçoará.


3. Evangelho: Mc 10,2-16
O que Deus uniu o homem não separe.

Enquanto está a caminhode Jerusalém,Jesuscontinua ensinando a multidão que o segue. Os fariseus aproveitam a ocasião para testá-lo e lhe perguntam se é permitido ao homem divorciar-se de sua mulher. Ao perguntar-lhes “O que Moisés vos ordenou?”, eles respondem: “Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedi-la”. Referiam-se a Dt 24,1-4, um texto casuístico, onde se determina o que fazer no caso de uma separação existente. Escrever uma certidão de divórcio, por um lado, significava uma declaração de falência de um matrimônio e, por outro, uma declaração de que a mulher estava livre para casar-se com outra pessoa. Na resposta, Jesus diz que Moisés permitiu escrever a carta por causa da “dureza de vosso coração”. Dureza, aqui, significa a resistência persistente ao projeto de Deus, como o faraó que não deixa os hebreus saírem do Egito, ou Israel que se obstina em não acolher a palavra dos profetas (Is 6,8-10; Jr7,26). Jesus remete para outra parte da Lei atribuída a Moisés, no livro do Gênesis, onde se fala do ser humano criado à imagem e semelhança de Deus, como “homem e mulher” – literalmente “macho e fêmea” (cf. Gn 1,28). Ao dizer: “Por isso, o homem [ele] deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher [ela] e eles serão uma só carne” (Gn 2,24) [ver 1ª leitura], Jesus une os dois textos.E, ao unir os dois textos, aponta para a dupla finalidade do matrimônio: a geração de filhos (“macho e fêmea” – assim como está no grego!) e o complemento mútuo. Os dois são o necessário auxílio mútuo e se correspondem do ponto de vista sexual, psicológico e na comunhão de amor, entre eles e em relação aos filhos. Em casa (de Pedro), Jesus afirma aos apóstolos que divórcio equivale a adultério.
A cena seguinte, quemostra Jesus abraçando as crianças,completa o projeto desejado por Deus para a família, isto é, a união homem-mulher e filhos. Diante da falência de muitos matrimônios, o Estado pode e deve legislar. A orientação para os católicos, porém, vem da Igreja.O Sínodo dos bispos sobre a família renovou as orientações pastorais para buscar a fidelidade ao ideal da família proposto por Jesus. Recomendou que os recasados sejam acolhidos na Igreja com misericórdia.

Oração depois da comunhão: “Possamos, ó Deus onipotente, saciar-nos do pão celeste e inebriar-nos do vinho sagrado, para que sejamos transformados naquele que agora recebemos”.

Frei Ludovico Garmus, ofm

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