Institucional



28.09.2018
Liturgia

"Quem não é contra nós é a nosso favor"

 26º Domingo do Tempo Comum

Oração: “Ó Deus, que mostrais vosso poder sobretudo no perdão e na misericórdia, derramai sempre em nós a vossa graça, para que, caminhando ao encontro das vossas promessas, alcancemos os bens que nos reservais”.

Primeira leitura: Nm 11,25-29
Tens ciúmes por mim?
Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta.

O texto que ouvimos retoma a questão da partilha do poder como serviço em vista do bem do povo (Ex 18,13-27). Na caminhada pelo deserto, o povo se queixava que no Egito tinham alimentos em abundância, no deserto, apenas o maná. Moisés, cansado de ouvir as reclamações, recorre a Deus. Não queria mais bancar a babá do povo, que não era seu, mas de Deus. Na leitura de hoje, em resposta, Deus manda escolher 70 homens, líderes do povo, para ajudá-lo. Moisés convocou os 70 anciãos e colocou-os em volta da tenda de reunião. Deus retirou um pouco do espírito de Moisés e o deu aos anciãos. Então eles começaram a profetizar, mas logo pararam. Enquanto isso aconteceu na tenda, dois homens estavam profetizando fora da tenda, no acampamento. Josué, servo e possível sucessor de Moisés, protestou porque eles não estiveram na tenda de reunião entre os 70. E Moisés respondeu: “Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta”.
O relato mostra que o espírito não é monopólio de Moisés, e sim um dom de Deus, parte do qual ele retira e o dá aos anciãos. Deus não pode ser monopolizado pelo poder humano. O povo não foi bem atendido porque havia um conflito entre Moisés, que mantinha o monopólio do espírito e os anciãos, que desejam participar. Outro conflito se estabelece quando Josué joga Eldad e Medad, que profetizavam no acampamento, contra Moisés e os anciãos; eles não estavam na tenda, portanto profetizavam sem o controle de Moisés e dos anciãos. A solução do conflito surge quando Moisés reconhece que o espírito não é um monopólio seu, mas um dom de Deus para o bem de todo o povo. Em outras palavras, o espírito é um dom de Deus, um carisma, partilhado como serviço de todo o povo. O dom de Deus é concedido não para dividir, mas para unir a comunidade. É o espírito que une Moisés, Josué, os anciãos, Eldad e Medad com o povo, todos a serviço uns dos outros. Paulo diz muito bem que os dons do Espírito unificam a Igreja num só corpo, pelo vínculo do amor (cf. 1Cor 12–13). – Uma Igreja fechada em si mesma (na tenda!) abafa o espírito. Eldad e Medad apontam para a tão desejada “Igreja em saída” do Papa Francisco. (ver o Evangelho).

Salmo responsorial: Sl 18
A lei do Senhor Deus é perfeita, alegria ao coração.

Segunda leitura: Tg 5,1-6
Vossa riqueza está apodrecendo.

Tiago já havia criticado a discriminação entre ricos e pobres na comunidade cristã (2,1-5). Na leitura que ouvimos, mais uma vez, tece duras críticas contra alguns cristãos ricos de seu tempo. Para eles anuncia o iminente juízo de Deus: De que serve o acúmulo de bens, se a riqueza vai apodrecer, as roupas luxuosas serão comidas pelas traças, o ouro e a prata irão enferrujar! E denuncia: a riqueza é amontoada à custa de salários não pagos, a justiça é comprada e assim os pobres são condenados à morte. Enfim, os ricos se dizem cristãos, mas não vivem a proposta do reino de Deus, pregada por Jesus: “Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6,24). “Como é difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!” (Lc 18,24). Entrar no reino de Deus, seguir a Jesus Cristo como discípulo, exige cortar o “olho grande” para as riquezas e cego para os pobres (evangelho). É um convite para olharmos os pobres com os olhos de Jesus. Trilhões de dólares viram cinza no jogo especulativo das bolsas. A riqueza não partilhada com os pobres vira pó. Sábia é esta Palavra de Deus, não só para os cristãos, mas para todas as pessoas de boa vontade.

Aclamação ao Evangelho:
Vossa Palavra é verdade, orienta e dá vigor;
Na verdade santifica vosso povo, ó Senhor!

Evangelho: Mc 9,38-43.45.47-48
Quem não é contra nós é a nosso favor.
Se tua mão te leva a pecar, corta-a!

Domingo passado, Jesus explicava aos discípulos que a sua missão como Messias era a do Servo Sofredor. Não veio para ser servido e cortejado como rei, mas para servir aos mais pobres e dar a vida por todos. Enquanto isso, os discípulos discutiam quem deles seria o maior no reino, em Jerusalém. Jesus lhes ensinou que o maior deve tornar-se o menor, colocar-se a serviço dos pobres e necessitados. Deve acolher a todos, especialmente os pequenos e pobres, como Jesus fazia, ao abraçar uma criança.
Parece que os discípulos ainda não haviam entendido a mensagem de Jesus. Porque no evangelho de hoje, João avisa a Jesus que alguém, não pertencente ao grupo, estava expulsando demônios em nome de Jesus. “Nós o proibimos”, informava João com certo orgulho. – Quem era João e por que protesta? João e seu irmão Tiago queriam os primeiros lugares ao lado de Jesus, no futuro reino em Jerusalém. Pedro, Tiago e João eram os mais achegados a Jesus. Estão com ele na Transfiguração, no Jardim de Getsêmani e quando ressuscita a filha do chefe da sinagoga (Mc 5,35-43). João queria manter o controle de fazer o bem (milagres) como privilégio do grupo dos apóstolos. – Jesus responde: “Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. Quem não é contra nós é a nosso favor”. Fazer milagres em nome de Jesus é fazer o bem aos necessitados, sem buscar vantagens pessoais. Jesus significa “Deus salva”, salva a vida das pessoas. Todas as pessoas que fazem o bem ao próximo, mesmo não cristãs, agem como Jesus. Mostram a face bondosa do Pai celeste. Nos ditos seguintes, Jesus esclarece que até um copo d’água dado por um pagão a um cristão terá sua recompensa. Por outro lado, quem escandaliza (leva a pecar) um cristão (“os pequeninos que crêem”) – seja ele pagão ou cristão – não merece participar da Vida. Para entrar na Vida pelo caminho de Jesus Cristo exige-se cortar/podar tudo que nos leva a pecar, desviando-nos deste caminho. (ver 2ª leitura).

Frei Ludovico Garmus, ofm

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