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14.09.2018
Artigos

"Tu és o Messias - O Filho do Homem deve sofrer muito"

Oração: “Ó Deus, criador de todas as coisas, volvei para nós o vosso olhar e, para sentirmos
em nós a ação do vosso amor, fazei que vos sirvamos de todo o coração”.

1. Primeira leitura: Is 50,5-9a
Ofereci minhas costas aos que me batiam.

O texto é um cântico, o terceiro dos quatro Cânticos do Servo do Senhor inseridos na segunda parte do livro de Isaías (Is 40–55). O Servo se apresenta como discípulo, preparado pelo próprio Deus para proferir palavras de conforto aos judeus desanimados, no exílio da Babilônia. Cada manhã Deus abre os ouvidos do Servo para que ele possa acolher sua mensagem e comunicá-la ao povo. No texto de hoje, porém, o Servo tem os ouvidos abertos não para receber e transmitir uma mensagem ao povo, mas para obedecer ao Senhor. O Servo é um discípulo obediente (do latim, obaudio, obedecer, escutar), sempre atento à mensagem divina. Por isso, ele recebeu “uma língua de discípulo” (v. 4), capaz de transmitir palavras de conforto aos exilados. O Servo obediente não faz resistência à mensagem que Deus lhe pede para anunciar. Também não recua diante do desprezo, das humilhações e agressões sofridas por parte dos que se opõe à sua mensagem. Não recua diante dos opositores, porque confia em Deus, que é seu Auxiliador. O profeta percebe Deus como um “Auxílio” sempre próximo, pronto para socorrê-lo, mais próximo do que Adão e Eva, que criados por Deus, auxiliam-se um do outro, ou seja, cada um é “auxílio” para o outro. A Palavra hoje proferida inspira confiança e uma atitude de discípulo obediente à vontade do Senhor, em meio à violência e ao desprezo sofrido.


Salmo responsorial: Sl 114
Andarei na presença de Deus, junto a ele, na terra dos vivos.


2. Segunda leitura: Tg 2,14-18

A fé, se não se traduz em obras, por si só está morta.

Paulo, em suas cartas, fala da fé como dom de Deus, condição para nos tornarmos filhos de Deus. Pelas nossas boas obras – diz ele – jamais poderemos “comprar” ou merecer este dom.
Tiago, por sua vez, fala para cristãos que já receberam o dom da fé e são filhos de Deus. Havia nas comunidades cristãs pessoas que interpretavam mal as palavras de Paulo, como se bastasse ter fé em Cristo, sem as boas obras. Para estes, Tiago lembra que não basta ter fé em Deus, ter fé em Cristo Jesus, para ser salvo. A fé que não se traduz em obras – diz Tiago –, por si só, está morta. É preciso que a fé dos que são filhos de Deus brilhe pelas boas obras que praticam.
Também Mateus deixa isso claro: “Vós sois a luz do mundo (...). E vossa luz deve brilhar diante das pessoas, para que estas vejam vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,14-16).

Aclamação ao Evangelho:

Eu de nada me glorio, a não ser, da cruz de Cristo;
Vejo o mundo em cruz pregado e para o mundo em cruz me avisto.


3. Evangelho: Mc 8,27-35
Tu és o Messias... O Filho do Homem deve sofrer muito.

No domingo passado vimos como Jesus curou um surdo-mudo, tocando-lhe com saliva os ouvidos e a língua. Tirou o surdo-mudo de seu isolamento. Agora ele podia ouvir e ser ouvido. Apesar da proibição de divulgar o fato, o homem não parou de falar.
Jesus curava cegos, surdos, mudos, coxos e leprosos, mas estava preocupado com os discípulos. Antes desse texto do evangelho segundo marcos, Jesus tinha curado um cego em Betsaida (Mc 8,22-26). Havia bastante tempo que os discípulos o seguiam, mas continuavam surdos e cegos diante de seus ensinamentos e de sua pessoa. Por isso, Jesus estava impaciente e queria curar a cegueira e a surdez deles: “tendo olhos, não vedes e tendo ouvidos não ouvis” (8,18)? Por isso, retirou-se com eles para Cesareia de Filipe, junto às nascentes do rio Jordão. Era hora de esclarecer qual era sua missão. Queria saber o que pensava o povo a seu respeito. Eles respondem: “Alguns dizem que és João Batista; outros que és Elias, outros ainda, que és um dos profetas”. Então Jesus pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Nesse momento devem ter olhado para Pedro... E ele, então, tomou a palavra e disse: “Tu és o Messias”.
Chegamos assim ao núcleo central da fé cristã, isto é, ao reconhecimento de que Jesus é o Messias esperado, o Cristo, o Ungido do Senhor.
Jesus, porém, proíbe que falem disso aos outros. Precisava esclarecer que tipo de Messias ele era, para não alimentar, mais ainda, falsas expectativas. Pedro, provavelmente, pensava num Messias “filho de Davi”, guerreiro e libertador da opressão estrangeira. Jesus precisava corrigir esta imagem de Messias que estava na cabeça de Pedro e dos discípulos. Por isso, “começou a ensiná-los” em que sentido ele era o Messias. Com efeito, Jesus nunca disse ser Ele o Messias, e sim, o Filho do Homem. E, como tal, devia sofrer e ser rejeitado pelos chefes do povo; devia morrer, mas ressuscitaria após três dias.
Pedro, percebendo que sua representação de Messias-“filho de Davi” guerreiro caía por terra, tenta corrigi-lo e afirmar qual era o Messias eles esperavam. Jesus olha para os discípulos e chama Pedro de “satanás”, isto é, de adversário, ou seja, alguém que tenta desviá-lo do projeto de Deus. E manda que se coloque atrás dele.
Jesus é o mestre que mostra o caminho e que ensina. Como discípulo, Pedro devia, pois, seguir o mestre e o caminho do Servo Sofredor (1ª leitura), escolhido por Jesus. Mas Jesus também convida os discípulos e a multidão (todos) a segui-lo pelo mesmo caminho: quem quiser segui-lo, ou, em outras palavras, que quiser tornar-se seu discípulo deve renunciar a si mesmo, tomar a sua cruz. Renunciar a si mesmo é saber “perder sua vida” por causa de Cristo e do Evangelho, para poder ganhá-la.
Fica, pois, a pergunta: quem é Jesus para mim? Um Messias triunfante, ou um Messias que enfrenta o sofrimento e é solidário com os sofredores? Jesus deu a resposta no ensinamento hoje proclamado.
Saberemos quem é Jesus Cristo, colocando-nos em seu seguimento, como discípulos.

Frei Ludovico Garmus, ofm

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